segunda-feira , 31 agosto 2026
Início Distrito Federal Mulheres negras na linha de frente: o ativismo oculto na construção de Brasília
Distrito Federal

Mulheres negras na linha de frente: o ativismo oculto na construção de Brasília

311

Enquanto os icônicos prédios modernistas do Plano Piloto de Brasília eram erguidos, um grupo de mulheres negras lutava por direitos políticos, melhores condições de vida e reconhecimento em uma cidade que historicamente as marginalizava. O dossiê “O lugar das mulheres pretas na construção de Brasília nas décadas de 70, 80 e 90”, iniciativa do Núcleo de Arte do Centro-Oeste (Naco) e coordenado pela consultora chilena Paloma Elizabeth Morales Arteaga, reúne relatos de sete dessas pioneiras, incluindo a jornalista Jacira da Silva, de 74 anos. Chegando à capital em 1960, aos 9 anos, Jacira descreve uma Brasília distante do ideal propagandeado, com segregação espacial que afastava trabalhadores negros para periferias como Ceilândia e Taguatinga, conforme analisado pelo geógrafo Milton Santos. Sua participação em reuniões clandestinas, inspiradas na estratégia dos quilombos, marcou o início de seu ativismo, que se intensificou durante a ditadura militar, com racionamentos e repressões na Universidade de Brasília (UnB).

Jacira integrou o Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNUDF) em 1981, após atuar no Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB), onde combatia o mito da democracia racial e defendia a educação e cultura como ferramentas de empoderamento. Ela destaca as dificuldades internas nos movimentos, onde mulheres negras demoravam a ser respeitadas em debates e negociações. Outras narrativas no dossiê, como a de Maria Luiza Júnior, fundadora do MNU-DF, revelam a transição de organizações como o Instituto Nacional Afro-Brasileiro (INABRA) para o MNU, focado na sobrevivência da juventude negra. Já a assistente social Cristina Guimarães critica o feminismo hegemônico da época por ignorar experiências de mulheres negras, indígenas e trabalhadoras domésticas, levando à criação do Encontro Nacional de Mulheres Negras em 1988, coincidente com a Assembleia Constituinte e o centenário da abolição.

Esse período fomentou mobilizações contra a “falsa abolição”, resultando em marchas e na fundação de entidades como Criola, Geledés e o grupo Mãe Andresa. Paloma Arteaga, impressionada pela maioria negra nas ruas do Brasil sem correspondente reconhecimento, enfatiza a persistência dessa luta em um país majoritariamente povoado por negros. Os depoimentos, baseados em entrevistas e pesquisas no Arquivo Público do Distrito Federal, evidenciam como essas mulheres contribuíram para a redemocratização, participando ativamente da Constituição de 1988 e moldando o debate sobre igualdade racial e de gênero na capital federal.

Conteúdos relacionados

Policial militar de folga impede agressão com faca e barra de ferro na Asa Norte

Um policial militar de folga da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF)...

Projeto de lei propõe três aulas semanais obrigatórias de Educação Física no DF

Um projeto de lei apresentado na Câmara Legislativa do Distrito Federal estabelece...

TJDFT destaca voluntariado de servidoras no Dia Nacional do Voluntariado

No Dia Nacional do Voluntariado, marcado em 28 de agosto de 2026,...

Kiko Caputo propõe plano de 30 anos para segurança pública no DF

Kiko Caputo, candidato pelo Novo ao Palácio do Buriti, apresentou propostas para...