O etarismo, preconceito contra pessoas idosas, emerge como uma forma de discriminação universal e cada vez mais evidente em diversas esferas da vida contemporânea. Esse viés, que associa o envelhecimento a fragilidade e incompetência, não apenas marginaliza indivíduos, mas reflete uma falha coletiva em lidar com o inevitável processo de envelhecer. Em um mundo onde a expectativa de vida aumenta, o etarismo se torna não só injusto, mas contraprodutivo, perpetuando estereótipos que ignoram as contribuições valiosas dos mais velhos.
Nos Estados Unidos, a corrida presidencial entre Joe Biden, de 81 anos, e Donald Trump, de 78, ilustra perfeitamente como o etarismo opera de forma seletiva e hipócrita. Biden enfrenta críticas constantes sobre sua idade, com questionamentos sobre sua capacidade cognitiva e física, enquanto Trump, apenas três anos mais jovem, escapa de escrutínio similar. Essa disparidade revela que o preconceito não se baseia puramente em fatos, mas em narrativas convenientes, frequentemente alimentadas por interesses políticos e midiáticos.
No Brasil, o etarismo também se manifesta de maneiras sutis e explícitas. O caso de Silvio Santos, aos 93 anos, gerou debates sobre sua aptidão para continuar à frente de programas de televisão, com comentários que beiram o desrespeito. Da mesma forma, em reality shows como o Big Brother Brasil, participantes idosos sofrem com piadas e exclusões que reforçam a ideia de que a velhice é sinônimo de obsolescência.
Especialistas como a gerontóloga Laura Machado destacam que o etarismo não é inofensivo; ele impacta profundamente o mercado de trabalho. Idosos enfrentam barreiras para recolocação profissional, com empresas priorizando juventude em detrimento de experiência. Isso resulta em desemprego prolongado e subutilização de talentos, agravando desigualdades econômicas em uma sociedade que envelhece rapidamente. No Brasil, onde a população idosa cresce, ignorar essa realidade é ignorar um potencial econômico inexplorado.
Além do âmbito profissional, o etarismo afeta a saúde e o bem-estar psicológico. Estereótipos negativos levam a uma autoimagem depreciada entre os idosos, aumentando riscos de depressão e isolamento social. Estudos indicam que esse preconceito pode até encurtar a expectativa de vida, pois idosos internalizam narrativas de declínio e evitam cuidados preventivos. É uma forma de violência simbólica que se alastra, influenciando políticas públicas e atitudes cotidianas.
O envelhecimento demográfico global torna o combate ao etarismo uma urgência. Países como o Japão, com uma das populações mais idosas do mundo, já adotam medidas para integrar idosos na sociedade, promovendo inclusão e respeito. No entanto, em nações como o Brasil, o debate ainda é incipiente, limitado a discussões superficiais que não abordam raízes culturais profundas, como o culto à juventude perpetuado pela mídia e pela publicidade.
Em última análise, o etarismo não discrimina por gênero, raça ou classe; ele nos atinge a todos, pois todos envelheceremos. Permitir que esse preconceito floresça é condenar a sociedade a uma visão míope, onde o valor humano é medido por anos, não por méritos. É hora de repensar narrativas e políticas para construir um futuro onde a idade seja vista como um ativo, não como um fardo.